Confesso nunca ter sido grande fã dos premiados “Cidade de Deus”, “Dois filhos de Francisco”, “Tropa de Elite” e todo o contexto de miséria, violência e favelas que os envolve. Não dá pra negar que tais filmes representam mesmo a realidade e suas produções foram dignas de tal sucesso. Não seria nada real colocar uma máscara em todos os problemas sociais do nosso Brasil e passar a reproduzir nas telas apenas contos de fada.
Mas, sempre senti falta de um bom cinema nacional que retratasse os jovens brasileiros e pelo qual eu pudesse me identificar. Faltava na minha lista dos filmes que me influenciaram, um representante brasuca.
Há quase um ano, vi o trailer de “Apenas o fim”. Desde então, não parei de ler e assistir tudo que estivesse relacionado a ele, além da busca incessante pelo filme em si, que ainda não tinha uma distribuidora e, portanto, só era exibido em alguns festivais de cinema. Um ano depois, o filme foi lançado pela Paris Filmes e, finalmente, eu pude assistir. Foi paixão à primeira vista. (E à segunda, à terceira, à quarta…)
O filme é real: os atores Érika Mader e Gregório Duvivier nem parecem estar representando. A infinidade de referências à cultura pop da década de 90, juntamente com a conversa sobre o término de um namoro e tudo o que isso envolve, torna a história de Antônio e Adriana a nossa história.
A direção e o roteiro de Matheus Souza, estudante de cinema de apenas 20 anos, envolve o espectador durante cada minuto dos oitenta do filme, que mistura piadinhas irônicas com romantismo. A pouca idade não foi empecilho para mostrar o talento de Matheus, que rifou uma garrafa de whisky para produzir “Apenas o fim.” Convidou amigos e rodou o filme todo na própria universidade em que estuda. Um filme que começou despretensioso ganhou prêmios de júri popular e foi exibido mundialmente em festivais de cinema. Bom pra todos nós, que gostamos de cinema de qualidade e, pra minha lista, que foi dignamente completada.
Coincidentemente, na mesma época em que estava descobrindo o meu encanto por “Apenas o fim”, assisti “As melhores coisas do mundo” no cinema.
Desta vez, a produção era maior: o filme é o terceiro longa-metragem de Laíz Bodanzky, diretora que tem o dobro da idade do Matheus Souza, mas que também conseguiu retratar temas que envolvem a nossa geração com muita realidade.
“As melhores coisas do mundo” se torna real ao escolher atores inexperientes e ao elaborar o seu roteiro com a participação de adolescentes. A história que se passa em uma escola de classe média paulistana e envolve bullying, fofocas,“panelinhas” e problemas familiares pode ser facilmente identificada por qualquer um que tenha vivido esse contexto na adolescência.
“Não é impossível ser feliz depois que a gente cresce. Só é mais complicado.” (citação do protagonista do filme) e “Something” dos Beatles fecha o filme com chave de ouro e fez o ingresso do cinema ter valido muito a pena.
Não me considero totalmente satisfeita, já que, proporcionalmente, os representantes brasileiros na minha listinha são bem menores que o resto. Plagiando Marcus Vinicius de Medeiros (Omelete), que este não seja, como sugere o título, Apenas o fim, mas sim o começo. O começo de uma era de filmes nacionais bem produzidos que representem “nós”: os nascidos na década de 90.
*Publicado em 23 de Maio de 2010